sexta-feira, 1 de junho de 2007

A Liberdade

Vista dos fundos do Blenhein Palace em Woodstock, Oxsfordshire

Para aqueles que pela primeira vez deitam seus olhos nos parques ingleses a imensidão desses espaços abertos e muitas vezes quase totalmente planos pode ser um choque, especialmente se essas pessoas forem provenientes de cidades onde cada metro, cada centímetro tem um uso, seja ele feito pelo homem, de forma planejada ou não, seja ele feito pela natureza. Num primeiro momento, pode lhes parecer absurdo que um espaço tão grande seja desperdiçado com algo tão inútil e sem propósito quanto grama, principalmente quando esses espaços estão inseridos num contexto urbano. Contudo, passado o choque inicial, os visitantes descobrem as maravilhas de se ficar de pé no meio de um gigantesco tapete natural, onde em qualquer direção que se olhe há uma vista espetacular.
No entanto, é no campo onde se encontram as paisagens mais chocantes, pois não há nada mais maravilhoso e assustador do que olhar para um gramado e não ser capaz de determinar onde ele termina. Nesses espaços não há absolutamente nada que impeça o visitante de se movimentar em qualquer direção e ele é tomado pelo desejo de explorar aquela imensidão até encontrar o extremo oposto. Tem-se a sensação de que se poderia correr a vida inteira e ainda assim jamais chegar ao outro lado.
Talvez seja essa a maior qualidade do Paisagismo Inglês, a capacidade de transformar um sentimento tão abstrato quanto a liberdade em algo tangível.

Os Gramados

Cambridge
Os gramados são talvez os elementos de maior impacto no paisagismo inglês. Num mundo onde somos obrigados a viver em espaços cada vez mais apertados, fechados e lotados, nada se compara à reconfortante imensidão aveludada dos parques ingleses e à sensação de se estar em um espaço amplo e aberto, onde tudo está ao alcance do olho. Os gramados apresentam quatro características importantes: extensão, forma, relevo e ondulação.
A extensão não depende somente das proporções do parque, mas também dos outros elementos (maciços, rochas, ruas, bosques, etc.). É importante reservar uma superfície grande para traçar as linhas de vista, principalmente a vista principal que é a da edificação.
A forma tem estreita relação com a direção das alamedas, pois são elas que determinam os contornos dos gramados.
O relevo é marcado pela extensão e pelo contorno do gramado, que indicam a maneira como o terreno acliva ou decliva, e ainda pela presença de pedras ou não. As saliências devem ficar fora da linha das visadas para não encobri-las ou então, se adaptarem a elas.
Já as ondulações não devem diferenciar exageradamente do relevo natural do solo e o meio do gramado deve ser rebaixado formando rampas convergentes.

As Águas

Parque do King's College, Universidade de Cmbridge

As águas estão presentes na natureza das mais diversas formas, elas ficam dormentes, caem, correm, brotam... E, uma vez que o Estilo Paisagístico Inglês de jardim é uma reprodução da natureza, deve-se, ao máximo, tentar deixar o rio, lago, corredeira, etc., com aspecto natural, modificando-se o relevo onde o mesmo vai ser implantado.
As águas dormentes (lagos) dão a impressão de descanso, as correntes (cascatas), dão impressão de agitação, de movimento. No geral, as águas paradas devem ser usadas em grandes espaços, como em parques públicos, por exemplo, e as águas correntes, em pequenas propriedades privadas.

As Árvores

Parque do King's College, Univercidade de Cambridge

Em qualquer estilo as árvores são elementos essenciais na decoração de um jardim paisagista. Elas podem estar presentes nas formas de florestas, bosques, maciços ou árvores isoladas.
As florestas e bosques são elementos de grande superfície que podem ser naturais ou não. Já os maciços são grupos de árvores onde elas são plantadas de forma adensada, se confundindo com a cobertura dos bosques e florestas. São compostos por pequeno número de essências onde uma não predomina sobre as outras, e suas localizações são indicadas conforme a necessidade de adaptação do local. Os maciços são frequentemente usados para dar segurança ao observador, impedindo a visada a certos pontos da propriedade. São usados para proteger o pomar e todos os pontos ao redor do jardim, para mascarar as casas dos vizinhos, para impedir a visão dos limites da propriedade e para obter sombra sobre os pontos próximos aos cruzamentos, quadras de tênis, salas de jogos e áreas de repouso, de modo a criar um ambiente de conforto e intimidade.
Já as árvores isoladas, são geralmente árvores especiais, nativas ou exóticas, que possuam beleza extraordinária. Elas são plantadas em pontos de vista especiais.

As Vistas

Leeds Castle, Kent

Uma vista é uma superfície enquadrada onde ao fundo existe um objeto, seja ele um monumento, uma edificação, uma colina, um bosque, ou uma árvore isolada. Ao se analisar uma vista deve-se considerar três fatores: o ponto de vista, o espaço livre até onde o olho do observador está e o quadro.
Os pontos de vista podem estar no interior do jardim ou no exterior. No caso dos pequenos jardins das cidades não se deve ter as vistas do lado de fora, contudo, em um jardim extenso, situado no campo, querer traçar as vistas dentro dos limites da propriedade é um erro. Deve-se, ao contrário, respeitar as áreas externas, como as colinas, os rios, os bosques, os vilarejos, o mar etc., pois quando o sol as banha de luz, seus pontos de vista longínquos vão se distanciando como o branco da manhã, o negro da noite e o multicolorido do meio dia. Assim, presenteia-se o observador com a amplitude do mundo.
Quanto aos pontos de partida de linhas de vistas, esses podem ser razoavelmente numerosos, sendo que um deles, geralmente o da edificação, é o principal e domina os outros pontos. Porém a edificação não é somente um centro de partida, mas também um centro de convergência, onde devem passar a maioria das linhas de vista.
Uma vez escolhida a paisagem a ser enquadrada, deve-se colocar nos planos mais distantes árvores altas e nos planos mais próximos árvores cada vez com menor altura. Esse procedimento ajuda a prolongar o espaço favorecendo a sensação de amplitude. Deve-se também ter o cuidado de colocar nos dois lados da linha de vista grupos de árvores que conduzam o observardor a olhar sempre em frente, em direção a vista.

O Homem e a Natureza

Parque do King's College, Universidade de Cambridge

O paisagismo inglês se caracteriza pela sutil influência do homem na natureza. Ele rompe a retidão e a simetria das vias e da vegetação, umas das principais características dos demais estilos da época, promovendo uma aproximação tão harmoniosa entre o homem e o meio ambiente que muitas vezes é difícil determinar o que é natural e o que é artificial.
Essa harmonia só é possível graças à forma democrática como os elementos naturais são empregados dentro do jardim, buscando compor paisagem, edificações e caminhos como um quadro; fazendo com que cada uma dessas partes realize concessões, mas nunca comprometendo os seus ideais.
É dessa forma que o jardim transmite ao visitante uma sensação de paz e liberdade, na medida em que não o obriga a seguir um determinado traçado, não aprisiona seu olhar em um determinado padrão e não o bombardeia com uma profusão de cores, ornamentos e monumentos.
O visitante é livre para transitar na amplitude do espaço.